Quando deu 00:01 ele começou a olhar pela janela, prestar atenção no celular e no telefone que a qualquer momento poderiam tocar. Ele esperava a surpresa que tanto sonhava. "É hoje! É hoje! É hoje!" exclamava ele com uma assustadora animação. E depois de duas horas acordado esperando a surpresa resolveu dormir. Ele tinha certeza que não fariam serenata em plena madrugada, era muito óbvio, clichê demais.
   Depois de dormir mal, pois acordava várias vezes durante a noite prestando atenção à qualquer barulhinho suspeito, levantou-se no horário habitual, fuçou a caixa de correio, o e-mail, as redes sociais... nada. Nada além de contas, e-mail carregados de vírus, e recados coletivos em seus scraps.
   Mas mantinha a esperança. Esperava uma grande surpresa. Informou então ao porteiro sobre a festa surpresa que esperava, e autorizou a entrada de qualquer um ao seu apartamento, "Eles irão arrumar a festa, fique com a chave, e a entregue a quem vier." O porteiro não entendeu nada, mas guardou a chave em uma de suas gavetas. E saltitando o homem foi em direção ao seu carro, olhou se tinha alguma carta ou coisa do gênero em seu parabrisa, mas lá não havia nada.
   Então ele seguiu para o trabalho, no carro não parava de olhar para o celular, seguiu todo o percurso observando os outdoors, "Podem ter feito um pra mim." Pensava ele. Mas nada... Nada além de mulheres bonitas e frases chamativas que te fazem necessitar naquele produto, na maioria das vezes desnecessário. E o celular nunca esteve tão silencioso.
   Chegou ao trabalho, sorriu para a recepcionista esperando alguma coisa, mas nem um sorrisinho forçado ela retribuiu. Entrou no elevador, sorriu para as pessoas. Foi ignorado. Chegou ao seu andar, nada de balões e  cartazes como esperava. Nada de abraços e beijos.Começou a perder as esperanças. Trabalhou como todos os dias. Almoçou e jantou sozinho em um restaurante entre o trabalho e a sua casa. Depois disso seguiu pra casa.
    Estacionou o carro, pegou a chave com o porteiro, subiu alguns lances de escada e...
    Ao abrir a porta...
   Não havia ninguém em seu apartamento, nem um bolo, nem um bilhete. Nada... nada...nada...
   Ficou tão triste o pobrezinho. "Ninguém lembrou..." lamentava-se.
   Deitou-se na cama, tirou os sapatos apertados e suspirando disse pra si mesmo: "Esse é o pior dia do datilógrafo de toda a minha vida."

  E lá estava João de novo. Sentado na varanda olhando a rua, com a mesma desculpa: "Estou esperando o mundo mudar". Todos achavam que João estava enlouquecendo, pois já fazem duas semanas que João senta-se na varanda e não faz nada além de esperar o mundo mudar. A família está desesperada, nos primeiros dois dias não ligaram, até riam e debochavam de João, alguns falavam "Ele não vai aguentar ficar tanto tempo sentado nessa cadeira desconfortável." A mãe de João fingia que nada acontecia "João é mesmo um palhaço. Para de brincadeira menino, vem jantar". Ninguém ligava muito pra atitude radical de João. Mas agora fazem duas semanas, duas semanas é tempo suficiente para uma brincadeirinha boba.
  Todos estão preocupados. Fazem duas semanas que João só dorme depois da meia noite e acorda antes do sol nascer. "Não quero perder nada do meu dia." Dizia ele. Fazem duas semanas que João sorri sozinho olhando para o céu e o ambiente ao seu redor. Fazem duas semanas que João tem cantado e demonstrado extrema felicidade e satisfação por estar ali, parado, sentado, esperando.
   "Ele está delirando, só pode." disse o pai de João. A família não para, estão todos andando de um lado para o outro, todos tentam achar uma solução. A mãe já ligou pro médico, a vó está agora preparando um chazinho que aprendeu com sua avó que era índia "Esse chá é milagroso!" balbuciava ela enquanto colhia as ervas no quintalzinho dos fundos. A irmã vasculha o quarto de João a procura de drogas ou pistas do que poderiam o ter levado a essa loucura. A tia acende uma vela para todos os santos que conhece. E João... João continua sentado de frente pra rua atento a qualquer indício de mudança no mundo.
  A família está tão preocupada com João. Eles têm tanto medo de terem um louco na família. Mas quem disse que João não pode ficar louco? Quem disse que João não pode passar toda a eternidade sentado em sua cadeira esperando o mundo mudar? João não deseja nada além do que todos desejam, uma mudança no mundo.
  Fala-se tanto em paz mundial, as pessoas ficam chocadas a cada novo assassinato que toma uma proporção gigantesca na mídia, as pessoas preocupam-se cada vez mais com o meio ambiente e suas catástrofes, mas o que fazem para isso mudar? Estão todos ocupados demais com seus personagens favoritos das novelas ou se vão ou não acessar as redes sociais. Estão preocupadas demais com a roupa nova que precisam ou com o limite do cartão de crédito que estourou de novo, que se esquecem de sentar-se um pouco e esperar. Esperar o sol nascer, o sol se por. Esperar a flor desabrochar e o passarinho aprender a voar. Esperar a vida tomar seu ciclo natural e o mundo mudar.
  João estava sentado sem preocupar-se com nada, e sua família apavorada tentando encontrar a cura para uma doença rara no mundo moderno - a paciência -.

  O acaso parecia distraido para com ela. Ela porém era sempre atenta às ironias que o destino poderia fazer. Mas nunca fazia ... nunca.
  Ela sonhava e ansiava por algo diferente e inusitado, algo surpreendente que mudaria sua vida de uma hora para a outra, que colocasse toda a sua organização de cabeça para baixo, que abrisse as gavetas secretas e bem arrumadas do seu coração e lançasse tudo ao chão, que transformasse suas fantasias e miragens em algo concreto e real e que abalasse as estruturas sólidas em que ela se encontrava.
  Ela sempre planejava tudo, desde o horário em que acordaria e tomaria sua xícara de café com três gotas adoçante até o momento exato de desligar sua televisão, onde assistia os mesmos programas tediosos e sem conteúdo útil, para depois ir cambaleando até o quarto e então pegar rapidamente no sono.
  Sua vida era tão monótona e previsível que nem ao menos queimar-se com café ela se queimava, ou colocava sem querer uma gota a mais de adoçante no café, ou tropeçava em algo que havia no corredor escuro que ligava a sala de tv até o quarto. Seus planos eram cumpridos a risca, não por escolha dela mas por esse tal de acaso que nunca se manifestava.
  Por incrível que pareça hoje ela havia acordado com a sensação de que algo iria acontecer, que algo mudaria os trilhos de sua vida. Ela levantou no primeiro toque do despertador como toda manhã, sua vida regrada não permitia atraso, tomou café, foi para o trabalho, cumprimentou sua secretária, digitou umas coisas, atendeu uns telefonemas, fechou um contrato e foi  almoçar naquele restaurante bacana enquanto paquerava o mesmo garçom, pagou a conta, entrou no carro, voltou ao trabalho, depois de uma longa reunião exaustiva chegou em casa tirou os sapatos de salto, soltou os cabelos e afrouxou a cinta, pediu comida japonesa, terça-feira é o dia de japonês, esperou a comida sentada em sua cadeira predileta enquanto digitava algumas coisas em seu notebook, a comida chegou, comeu, verificou duas vezes se o apartamento estava todo fechado, tomou um banho demorado, vestiu um pijama bem quente, ligou a tv, esperou que o sono chegasse, chegou. Apagou o televisor, apagou as luzes, foi andando bêbada de sono pelo corredor, foi ai então que... bateu o dedinho do pé na quina da porta, xingou um palavrão bem feio pois dizem que alivia a dor e depois sorriu, caiu na gargalhada, havia feito algo diferente em seu dia. Agradeceu ao acaso, e ainda com o dedinho latejando buscou gelo na cozinha, colocou gelo, depois disso dormiu, dormiu meia hora depois da hora habitual, dormiu feliz, acordou sorrindo.

  "Vilma Maria Fagundes... Vilma Maria Fagundes..." Ela repetia enquanto olhava seu reflexo no espelho. "Vilma Maria Fagundes" falou com uma voz grave e segura, passava autoridade para si mesmo no espelho, por um momento se sentiu forte, realizada, uma mulher de verdade que impusesse respeito e até um certo medo. Suspirou por um momento, a mulher que era refletida no espelho não era a Vilma Maria Fagundes que ela tanto tentava se convencer que era.
  A Vilma Maria Fagundes não tinha o que se queixar de sua vida. Nasceu em boa família, teve boa educação, aprendeu todo o tipo de prenda doméstica com sua mãe, foi ensinada a ser uma esposa exemplar, cozinhava divinamente, tinha noções de etiqueta e falava duas línguas.
  Passou a juventude inteira se preparando para o sonho de sua mãe: casar-se com um bom partido. E Vilminha casou-se com o Mario Fagundes, "Esse menino tem um futuro promissor!" Exclamava a mãe de Vilminha. Mario, mais conhecido como Fagundes, era jovem na época que pediu a mão de Vilminha, não era tão belo, mas seus olhos verdes despertavam um certo interesse na menina. Porém, Vilminha não sonhava em casar-se cedo, queria ser piloto de avião, astronauta, ou até entrar para o exército, menos casar. Vilminha queria ser independente e se apaixonar perdidamente, viver amores intensos, sonhos e loucuras adolescentes. Queria nadar em alto mar, sentar sem cruzar as pernas, colocar os cotovelos na mesa, gargalhar, roer as unhas, pintar os cabelos de loiro, usar decotes e mini saias, andar de bicicleta e correr sem sapatos com os cabelos soltos. Vilminha queria ousar. Vilminha era covarde, não tinha coragem de dizer não, não tinha coragem. E Vilminha não queixava-se guardava pra si os sonhos impossíveis e lunáticos que mantinha.
  Casou-se com Fagundes. Casou-se linda, um véu, um vestido, um buquê, um colar de pérolas, alianças, violino, damas de honra e uma grande festa no final. Vilma sorria durante a cerimônia, sorria em todas as fotos, e até sorria enquanto os convidados jogavam arroz em seu vestido caríssimo. Vilma odiava arroz, odiava quando jogavam arroz em seu decote comportado. Vilma odiava tudo. Porém nunca se deu ao luxo de sentir ódio de verdade, nunca se deu ao luxo de sentir de verdade. Nunca amou de verdade, nunca se satisfez de verdade. Pensava estar satisfeita por ter conseguido tudo que sua mãe sonhava, uma casa grande, filhos, um marido carinhoso, vestidos, jóias, viagens... Mas o que ela realmente pretendia com isso? O que a Vilma Maria Fagundes conquistou que antiga Vilminha desejava?
  Vilma Maria Fagundes adormeceu Vilminha desde que se tornou "a Vilma do Fagundes". Vilma não tinha identidade, não tinha história, era coadilvante em  sua própria novela. Quando um grupo de amigos conversavam sobre Vilma sempre tinha um que perguntava "Que Vilma? A do Fagundes?". E era isso que Vilma era, a Vilma DO Fagundes. Não tinha o que contar sobre ela, não almejava muita coisa além de acertar o ponto da massa do bolo de cenoura que Fagundes tanto gostava,e lambia até os dedos sujos de calda. Vilma se acostumou assim. Era frescura, pensava ela, a essa altura da vida querer mudar o que ja foi feito. "A Vilminha morreu!" Exclamou com raiva olhando para o espelho. Segurou com força o vaso que havia comprado em uma de suas viagens à Itália, e ameaçou lança-lo contra o espelho e acabar logo de vez com o reflexo da antiga Vilminha. Não teve coragem. Colocou o vaso no lugar de origem, retocou o batom, ajeitou os cabelos bem tratados, vestiu o vestido preferido de Fagundes e desceu para o jantar oferecido a alguns amigos, onde era servido peixe ao molho branco. Vilma não gostava de peixe desde que era criança, mas sentou-se a mesa e saboreou o peixe como fosse sua carne favorita. Aliás, era a carne favorita de Fagundes.

  Fiquei um tempo olhando pra folha em branco. O que escrever? O que passar para o papel? Sentimentos? Estou a procura deles. Escrever sobre a falta de sentimentos que assombra a minha semana não seria uma boa idéia, até porque nunca uso a primeira pessoa em meus textos. Talvez seja receio, medo, pavor, pânico! Pânico da opinião alheia, pânico dos olhares maldosos que vão ficar sabendo de tudo que se passa ou não dentro da minha cabeça, a minha "caixa preta", só minha. Talvez seja porque quando as pessoas lêem um texto na primeira pessoa, pré julgam que tudo que está escrito no texto está se passando realmente na minha vida, e ai pensam que estou passando por uma fase ruim, querem oferecer ajuda ou coisa do gênero, ou pensam "coitadinha, ela sofre tanto." Não! Eu não quero ajuda, obrigada. Estou bem assim. Não estou em uma fase ruim, falta-me apenas inspiração. Falta-me um pouco de sal na vida, tempero, cebola, alho, e outras coisas mais que deixam um sabor agradável na comida que sempre desanda. Pode ser tempero artificial tipo caldo Knnor. Pensando assim poderia existir "Knnor minha vida - garantia de vida perfeita ou seu dinheiro de volta." Mas quem disse que vida perfeita é bom? Quem disse que sal é bom? Sal em excesso retém líquidos o que me deixa inchada, causa hipertensão entre outros problemas de saúde. E perfeição em excesso... não sei as causas de perfeição em excesso, não sei se tem como existir excesso de perfeição, o perfeito já é perfeito por si só, não tem a necessidade de ser excessivamente perfeito, é perfeito e ponto final. Não sei como terminar esse texto, não sei se é a hora de terminar esse texto, nem sequer  lembro do que comecei a escrever, acho que acabo de cometer a pior verborragia de toda minha vida, que por sinal não é muito longa. Sou tão jovem, tão pequena, tão insignificante, mas tenho tanto medo, medo dos olofotes, medo dos palcos da vida, medo de aparecer e descobrirem o quão frágil é o meu núcleo que é escondido por camadas e mais camadas de garota forte, que escreve sobre coisas que não existem, cria e recria textos com outros seres que ganham vida quando minha caneta encosta no papel, que não consegue sequer escrever sobre ela mesma. Camadas e mais camadas de corretivo, base e pó compacto para esconder a noite mal dormida porque sonhava acordada com coisas que não vão existir, tenho medo de sonhar dormindo, medo de me entregar e mergulhar no buraco negro e ir pro país das maravilhas, onde eu não tenha total controle da situação, e quando acordar não me lembrarei exatamente se foi um sonho ou não. Camadas e mais camadas... Não é falsidade, nem máscaras é auto-proteção. Auto-proteção contra sentimentos, tenho medo de sentir. Auto-proteção contra mim mesma. Auto-proteção contra o medo que me deixa cada vez mais burra e insegura. Não quero me auto-proteger, quero mergulhar de cabeça sem capacetes ou cabos de aço, quero sentir o vento balançando meus cabelos enquanto eu me jogo no desconhecido, mergulho sem galão de oxigênio em um oceano profundo e novo. Anseio pelo novo. Preciso do novo. Me alimento do novo....              Estou desnutrida.

  Irônico não? Irônico o modo em que levamos a vida.
  Ironia é resultado de eventos que é contrário ao que seria esperado. E o que esperamos da vida além de mais vida?
 Nascemos e crescemos sendo ensinados a cumprir horários, cercados por regras, ditaduras, estereótipos, sonhos idealizados, projetos, planos, provas.
  Então você começa a viver a sua vida assim, regrada, planejada, cronometrada.
  Hoje seu despertador despertou no horário habitual, então você acorda toma um banho rápido, toma um reforçado café, pois dizem ser a refeição mais importante do dia, espera e deseja por um longo dia, um dia que precise de uma refeição antes que ele comece, um dia todo planejado, sua agenda está cheia, seus horários restritos. 
  Sai de casa sem se despedir dos filhos, estava atrasado, sempre está atrasado,entra no seu carro caro, enfrenta um engarrafamento, xinga o motorista que te cortou, se estressa com o sinal fechado, não presta atenção no rádio que está tocando a sua música preferida. Chega no trabalho que lutou pra conquistar, estudou, estudou e estudou, durante anos, teve dores de cabeça por causa das provas, a pressão para "passar de ano" era demais pra você, mas você passou. Completou o ensino fundamental e o médio. Veio então o vestibular, teve enjôos e nervosismo, dormia apenas 3 horas por noite, vivia a base de café para se manter acordado lendo e relendo aquelas matéria chatas, e tentando resolver os exercícios de cálculos impossíveis que fazia você arrancar os cabelos da cabeça. Passou! Comemorou, festejou, bebeu, comeu, dançou, abraçou, pulou, gritou. Depois de mais provas, trabalhos e estágios cai de paraquedas no mercado de trabalho, disputa uma vaga com outros 100 candidatos tão qualificados quanto você, perde um emprego, dois, três,quatro e no quinto consegue se manter, é promovido, ganha bem, já pode casar. Então você encontra o tão esperado amor de sua vida, reluta durante um tempo, espera o momento certo de chamar pro primeiro encontro, marca o encontro. Vocês se encontram, namoram, noivam, casam. Agora você tem uma boa faculdade, é um bom profissional, é bem sucedido em seu emprego, uma casa grande, uma bela familia, crianças correndo pela sala, mesa posta. 
  Continua a fazer planos, planeja uma casa com piscina, uma viajem para comemorar suas bodas, precisa de um aumento, um sapato novo, quem sabe também um cinto combinando. Prometeu começar a dieta na segunda.
  Mas como a vida é irônica! Você espera viver pra sempre, faz planos pra viver pra sempre, pelo menos pra viver até amanhã, não imagina morrer hoje, não planeja morrer hoje, não espera morrer hoje, mas a ironia é isso, o contrario do que seria esperado. Então você morre.
  E agora? E a dieta? Não pode começar. E o diário que você escondia de todos? Irão achar, irão ler, irão descobrir seus segredos mais íntimos. Vão mexer nas suas coisas, guarda-las em caixas, doa-las aos pobres, aquele casaco caro que juntou dinheiro pra comprar, aquele poema que escreveu, amassou e jogou no fundo da gaveta, aquela comida predileta, a sua cama quente, a casa com piscina, o seu diploma, o seu trabalho, as suas provas tudo ficou. 
  E o que você não fez? O sonho que tinha de andar de bicicleta outra vez e sentir o vento batendo no seu rosto, a vontade secreta que tinha de comer um pote de sorvete sozinho, de sentir os pés descalços na terra, de roer as unhas, de cortar ou pintar o cabelo, de dar risada de alguma situação. E o eu te amo que você não falou? Sentiu, sim, não questiono isso, mas não falou.
   Se preocupou a vida toda, teve insônia por causa de problemas pequenos, ficava acordado resolvendo problemas do trabalho, mas pra sair com a familia tinha sono. Esperava demais para então fazer alguma coisa que lhe desse prazer. Amava de menos, sorria de menos. 
   Pensou em comprar flores e levar para a esposa a noite depois do trabalho e dizer o quanto a amava e ela era essencial em sua vida  nunca disse algo parecido para ela, não tinha tempo. Não deu mais tempo. Morreu. Acabou. 
  Vida sarcástica.

  Felicidade é acordar bem cedo e ouvir os pássaros cantando, sentir a neblina matinal escorrer pelo seu rosto enquanto você contempla o sol nascendo no horizonte? Depois de um tempo isso viraria uma rotina tediosa, e a felicidade se encontraria na sua cama quente, no sol do meio dia, no barulho da buzina, nos carros desenfreados e nas nuvens carregadas do céu acinzentado.
  Felicidade então seria a praia? O sal, a brisa marinha, a onda batendo em seus cabelos, a areia que fica entre seus dedos, o encontro entre o céu e o mar, um beijo azul.
  Será então que felicidade é só sentir o pé no chão, comer fruta direto do pé, margaridas na janela, uma vista verde, deitar na rede, banho de cachoeira, animais, campo, flores, uma vida simples, rural? Carpe diem!!!
  Ou a felicidade é uma casa bem grande? Piscina, sauna, quartos, portas, janelas, armários, muros. É o pé no salto caríssimo, a bolsa, a roupa, o cabelo, o esmalte? Felicidade é ver a vida acontecer por de trás de cercas elétricas e seguranças, ou o dinheiro não compra a felicidade?
  Felicidade é sonhar? Felicidade é imaginar momentos, inventar sentimentos, fantasiar? Felicidade é um mundo paralelo? Felicidade está na loucura? No beijo roubado, na fração de segundos vivida, na música predileta, na foto tirada, nas lembranças, na marca de batom deixada em sua camisa, no filme que te fez chorar, no abraço dado, na notícia do jornal, no ombro amigo, na carta, no telefonema, no desparar do coração quando dois olhares se cruzam, quando duas mãos se cruzam, no sonho realizado, nas flores, na gargalhada, no domingo chuvoso, no cheiro do perfume, no sentir, no não sentir, no amor, no desamor, na dor?
  Por que corremos tanto atras da felicidade, da tão sonhada felicidade, da utópica felicidade? Seria então felicidade algo que possa ser conquistado? Existe a constante felicidade? Existe fórmulas, receitas, modo de fazer? Ou a felicidade está simplesmente no fato de termos que procurar por ela?


Papel
Caneta
Tinta

Tinta na caneta
Caneta no papel
Tinta no papel

Rabiscando palavras
Desenhando letras
Esvaziando a caneta

Caneta sem tinta

Papel
Caneta
Tin

  Tentou respirar normalmente. Tentou conter o descompasso das batidas de seu coração. Tentou amenizar o tremor das mãos e o pingar do suor frio em sua camisa engomada e bem alinhada.
  Ajeitou minuciosamente o cabelo antes de sair de casa, pois este nunca permanecia no mesmo lugar por muito tempo. Mas ao chegar lá já não mantinha a mesma perfeição da que via no espelho em sua casa. Conteve a respiração, encheu de ar os pulmões, segurou as flores com força na mão esquerda e com a direita bateu na porta.
 toc-toc, toc-toc.
  Pode ouvir os passos apressando-se até a porta. Aquela espera pareceu-lhe uma eternidade. Enquanto esperava tremia, suava, sonhava ... Sonhava em ver o rosto da amada. Sonhava em sentir seu abraço forte ao vê-lo. Sonhava em senti-la em seus braços, indefesa, dependente, protegida. Sonhava em sentir seu cheiro, seu toque, seu amor. Sonhava com o abrir da porta e o sorriso inocente nascendo no rosto delicado e frágil.
 A porta se abriu.
 Ele sorriu ao vê-la deitada. Seu coração batia ainda mais rápido, descompassado, desritmado. Colocou as flores sobre o criado que havia ao lado da cama. A tomou em seus braços fortes. Ela sorriu. Uma lágrima sincera escapuliu de seus olhos e percorreu todo o seu rosto. A esperou por tanto tempo, a desejou e a amou antes mesmo que ela pudesse vê-lo. E agora a tinha em seus próprios braços, a possuia, a amava como nunca amou ninguém no mundo inteiro.
  Um momento único. Seu tremor cessou. Agora precisa de forças para protege-la. Precisa de forças para lutar por ela, um ser tão pequeno e indefeso, uma jóia tão rara e tão frágil, uma vida tão inocente e pura, um amor eterno e incomparável. O amor de sua vida. Sua filha.


 Ela só queria saber fazer poemas.
 Ela só queria alguém que a compreendesse.
 Ela só queria saber fazer poemas.

Sempre a achavam preocupada demais.
 Pensativa demais.
 Sonhadora demais.

Porém, ela só se preocupava em fazer poemas.
Cansava-se de tanto querer.
 Tanto pensar.
 Tanto sonhar.
 Em fazer  poemas.

 Ela nunca aprendeu.
 Nunca rimou.
 Nunca descansou.
 Nunca...

Caroline Marino Pereira

  Aquela quinta feira foi diferente pra Mário. Mário era um senhor que tinha uns oitenta e poucos anos e que já era aposentado a tempos, tinha duas filhas e uma falecida esposa a quem ele muito amava e admirava. Os dias pareciam iguais para Mário, ele morava sozinho portanto não tinha muito com o que se ocupar. Aposentou-se depois de muito trabalhar mas não perdera a mania de levantar cedo, bem cedo.
 Naquela quinta feira como em todas as outras Mário se levantou assim que o sol apontou no horizonte, tomou o seu banho, abotoou os muitos botões de sua camisa preferida, calçou suas sandálias de couro bem confortáveis, colocou o café na cafeteira que ganhara de natal de sua filha caçula -a cafeteira é um dos poucos aparelhos tecnológicos em que Mário costuma usar, pois fazer café nunca foi seu forte- e rumou pela rua esburacada com certa dificuldade até banca de jornal, comprou o jornal de sempre, conversou um bocado com seu amigo jornaleiro, passou pela padaria e comprou uns pãezinhos e cigarro. Mário não fumava desde que seu médico, o Dr. Silveira, o proibiu alegando que Mário morreria antes de terminar a copa do mundo. Seu Mário adorava futebol, principalmente a copa do mundo, então viu-se obrigado a largar o vício. Porém toda quinta feira ele comprava cigarros, pois foi o cigarro aceso ao lado de sua poltrona que garantiu a vitória do Brasil durante tantos anos.
  Voltou para casa, colocou o café na xícara sentou-se na mesa e enquanto lia o jornal tomava seu café matinal. Depois  lavou toda a louça e foi se sentar em sua confortável cadeira de balanço que ficava na varanda. Passado não muito tempo viu-se sem ter o que fazer, até que decidiu varrer as folhas que caiam de seu abacateiro, varreu as folhas que caiam de seu abacateiro e sentou-se novamente na varanda esperando a visita da filha que lhe trazia o almoço todos os dias.

  Mas a hora preferida de Mário era a hora do jogo do Brasil contra a Itália. Mário sentava-se na poltrona encardida e velha que se situava em um ângulo perfeito de seu antigo televisor -sua filha mais velha já quis presentea-lo com uma tv de LCD porém Mário não quis, prefere a televisão antiga porém bem conservada- acendia um cigarro e mudava os canais e sem perceber colocava no canal de vídeo de seu televisor, e o seu aparelho de videocassete já ficava ligado com a fita VHS da final da Copa de 1970. Mário nunca desconfiou que assistia todas as quintas feiras as 15:30 o mesmo jogo, então ele vibrava, e revoltava-se contra o Pelé toda vez que ele perdia o mesmo gol.
  Porém nesta quinta foi diferente.
  Mário tinha uma diarista, a Juliete, uma mulher magra e assustadoramente alta com os cabelos loiros constantemente arrepiados que limpava sua casa fielmente todas as quartas feiars. Porém, Mário nunca viu o rosto de Juliete, sua filha caçula que a indicara. Enquanto Mário ia ao bingo toda quarta pela manhã, Juliete limpava sua casa. E por recomendação da filha de Mário não mexia no videocassete do velho. Depois de limpar pegava o dinheiro da  diária que estava dentro de uma bomboniere que Mário no auge de sua juventude trouxe de Paris em uma de suas viagens com a esposa. A bomboniere ficava sobre a mesinha de centro da sala de estar. Pegava o dinheiro e ia embora antes do velho chegar, ele não gostava de ver ninguém de diferente em sua casa. Porém naquela quarta feira Juliete teve amidalite viral e mandou a sua prima Francisca em seu lugar. Ao contrario de Juliete, Francisca tinha o corpo rechonchudo, olhos arregalados e cabelos bem penteados, porém seu maior defeito era a curiosidade.
   Francisca parecia mais uma exploradora do que uma faxineira, mexia e remexia em tudo, revirava os armários, as gavetas e sim... revirou o videocassete do Sr. Mário. Revirou as fitas, os discos e tudo mais que se encontrava ali. Por ironia do destino Francisca mudou as fitas e colocou no aparelho a fita da copa de 1974 no jogo em que o Brasil jogara contra a Holanda e não marcara nem um gol. Depois de ter feito isso Francisca pegou a sua diária na bomboniere e foi embora.
  E naquela quinta feira Mário sentou-se na poltrona, acendeu o cigarro, mudou de canal e assistiu o jogo. Nunca esteve tão vivo, nunca gritou tanto, nunca rezou tanto, nunca sentiu a adrenalina da derrota e da esperança de um gol.
  O Brasil perdeu.
  Algo mudou dentro do velho. A quinta feira não foi a mesma. Ele quis chorar, mas ao mesmo tempo sentiu-se tão bem, tão vivo, tão renovado.
  Mário só precisou de 90 minutos e uma partida frustante para então reviver. Relembrar como é viver e se emocionar. Sentir...
  A partir dali sem que ele saiba Juliete muda as fitas todas as quartas feiras, e todas as quintas são diferentes, cada quinta feira é uma emoção nova, um sentimento novo, algo adormecido acordou em Seu Mário, e ele já está pensando até em ir a um estádio para ver o Pelé.


Caroline Marino Pereira

  Sentia fome. Então em um golpe ligeiro levantou-se da poltrona já encardida, a muito sentava-se ali, e rumou até a cozinha vazia. Vazia como a sala onde assistia em sua televisão moderna os programas rotineiros de domingo.Vazia como o quarto onde refugiava-se nos dias de inverno, "A sala entra muito vento!" exclamava a mesma frase para si mesmo em tom de ira.Vazia como o resto da casa, e como seu sonho de casar-se de véu e grinalda.
  Abriu o armário com um pouco de dificuldade pois era uma mulher de baixa estatura, puxou lá de cima os ingredientes necessários para fazer canjica, adorava fazer canjica, e fazia canjica divinamente como nenhuma outra conseguiria fazer.
  Enquanto cozinhava seu prato preferido, ou melhor, a unica coisa em que podia gabar-se cozinhar bem, o resto era um fracasso total, ia assistindo a TV, e ria sozinha, gargalhava, chorava de rir das vídeo cassetadas, eram raros os momentos em que ria.
   Enquanto ria viu seu reflexo na panela em que cozinhava suas adoráveis canjicas, os cabelos precisavam de nova pintura, fios brancos já apareciam e multiplicavam-se assim como suas rugas. Até um tempo atrás ninguém ousaria dizer que Branca tinha mais de 40 anos, "Como pude ficar assim? O tempo passou e eu nem percebi, olha como estou agora." pensava isso enquanto mexia nos cabelos pouco cuidados.
   Branca sempre fora elegante sem deixar sua brandura de lado, dócil, linda, dedicada, inteligente, um pouco negligente nas tarefas domesticas, mas como diria sua avó, "Daria uma ótima mãe." "É um bom partido, uma moça linda e sensível, como ainda não se casou?"  comentavam os parentes em todas as reuniões familiares.
   Branca vivia sozinha a espera de domingo para poder rir um bocado e cozinhar sua panela de canjica. Já virara rotina como tudo em sua vida. Ela fazia uma panela bem grande de canjica e guardava o resto em potes vazios de sorvete e então na segunda-feira distribuia aos vizinhos, vizinhos estes que só a cumprimentavam aos domingos e segundas.
   O que a vida dera à Branca além do dom sagrado de cozinhar canjicas?
   Talvez seja esse dom que a destruiu. Toda vez que as pessoas comiam a canjica de Branca lambiam os lábios e bradavam em coro, "Já pode casar hein Branca?! Já pode casar." Branca agarrou-se a certeza de que a canjica lhe arrumaria um bom casamento, mas nenhum homem solteiro sequer havia provado de sua canjica, e a canjica apenas lhe arranjou números a mais em seu manequim.
   Branca refletiu e em um suspiro disse, " É tudo culpa da canjica, da maldita canjica.". Jogou a canjica pré cozida na lata de lixo, pediu uma pizza pelo telefone, esperou que esta chegasse e quando abriu a porta um motoboy não muito bonito, nem muito jovem, porém solteiro, lhe entregou a pizza com um sorriso no rosto. Ele sentiu o aroma da canjica e atreveu-se a pedir um pouco. "Essa é a minha chance, ele é solteiro, vai provar da minha canjica, e nós iremos casar, tenho certeza, iremos casar, estou apaixonada, estou amando..." suspirando pensou. Subitamente despertou de seu sonho e lembrou-se de que havia jogado no lixo a maldita canjica. Fechou a porta com brutalidade sem se quer despedir-se de seu ex-futuro marido, sentou-se na poltrona e voltou a assistir Faustão  devorando a pizza e repetindo para si mesma: "É tudo culpa da canjica, da maldita canjica..."

Caroline Marino Pereira

        Vejo rostos.
  Rostos pelas ruas.
       Rostos cansados e animados.
  Rostos abatidos e descontraidos.
       Rostos preocupados e desocupados.
  Rostos, rostos, rostos.
       Rostos estranhos, paradoxais, rostos insanos, artificiais, rostos, rostos, rostos.
  Rostos que eu nunca mais irei ver.
        Rostos que eu não sei descrever.

Caroline Marino Pereira

  Estavam dois senhores sentados no banco da praça do melhor bairro daquela cidade grande, um com um chapéu antigo que escondia seus cabelos já brancos, e outro também com chapéu segurando uma bengala que havia comprado em um leilão, seu lance foi absurdamente alto para uma simples bengala, eles conversavam sobre como eram felizes na juventude, como tudo está diferente hoje em dia e como eles já se divertiram naquela praça. Quando de repente  um garoto magricela e mal vestido surge correndo na praça, os senhores não sabiam de onde ele vinha e nem pra onde ele pretendia ir correndo naquele jeito. O senhor de chapéu muito observador, enxergou uma carteira vermelha em uma das mãos do menino:
  - É um assaltante, gritou o velho de chapéu.
  - Pega ladrão, gritou bem mais alto o outro senhor levantando sua bengala valiosa.
  As pessoas que estavam na praça se apavoraram,  as crianças que brincavam no parquinho  foram arrancadas dos brinquedos e seguradas com força por seus pais, parecia uma coreografia ensaiada, assim que o velho levantou a bengala, todos sairam correndo e agarraram seus filhos. Uma senhorita que ali estava presente segurou sua bolsa com tanta força que parecia ter sua alma guardada ali dentro. Um homem que por ali passava não entendeu a situação então perguntou a senhorita que estava apavorada e segurava sua bolsa com tanta força que parecia ter sua alma guardada ali dentro.
  - O que está acontecendo? Porque todos estão apavorados, e não tem crianças brincando no parquinho?
  - Ah meu senhor, foi um assalto, foi horrível, estou apavorada. Eu não vi tudo, mas o senhor de chapéu me contou que o garoto que passou correndo por aqui tinha acabado de assaltar uma senhora, pegou a carteira e saiu correndo pra se livrar do filho dela que era bem grande.
  O homem ficou apavorado, e correndo ligou pra sua esposa que iria encontrar-se com ele ali para levar seu filho ao parquinho.
  - Meu bem, não venha. Estou aqui na praça e teve um assalto horrivel, eu não vi nada, mas a senhorita me contou que o velho de chapéu a contou que um garoto assaltou uma senhora, pegou-lhe a carteira e saiu correndo, pois havia deixado o filho da senhora, que era bem grande, no chão pois o filho reagiu ao assalto, mas o garoto era enorme, e um só soco do trombadinha deixou o filho da senhora desfalecido.
  A esposa do homem quase desmaiou.
 - Ah meu querido, saia dessa praça agora, não quero que leve um tiro na testa, não quero ficar viuva tão cedo, nosso filho precisa de um pai. Ela quase não conseguia pronunciar as palavras.Ah meu Deus! Proteja meu marido! Rogou em voz alta.
 A empregada que cozinhava o jantar ouviu as súplicas da patroa e deixou a panela no fogo para trazer-lhe um copo bem grande de agua com açúcar
  - Que que aconteceu senhora? Ouvi a senhora falando no celular com o patrão, o que que ele falou que deixou a senhora assim tão preocupada? Perguntou isso entregando o copo bem grande de agua com açúcar para sua patroa.
  A patroa bebendo a água e tremendo respondeu-lhe:
  - Houve um assalto Graça, na praça onde seu patrão está, ele disse que não viu mas um senhor de chapéu contou a uma senhorita que contou pra ele ... a patroa aumentou tanto a história que o menino ja tinha um metro e oitenta e os dois filhos da mulher havia levado um tiro.
 A empregada ficou horrorizada.
 - Onde esse mundo vai parar não é mesmo patroa?! Esta cada dia mais perigoso sair de casa.
 A empregada continuou seu trabalho, e a patroa sentada em seu lindo sofá assistindo televisão não parava de ligar para o marido e pedir pra que ele voltasse logo.
 Chegou ao final do dia e a cidade inteira estava sabendo do terrível assalto na praça.
 - Ah! Era uma praça tão calma, onde as crianças podiam brincar tranqüilamente e os velhos relembrarem os velhos tempos, agora é o cenário de uma desgraça. Essa era a frase que todas as pessoas comentavam nas ruas daquela cidade.
  Depois de subir um grande morro e chegar em sua humilde casa de apenas dois cômodos a empregada que levou um grande copo de agua com açúcar para sua patroa colocou a bolsa em cima do sofá surrado e foi preparar o seu jantar, um pouco de arroz, um punhado de feijão e um pedaço de frango requentado que sobrou do almoço da patroa, era sua melhor janta da semana, pois havia carne, ela esperava ansiosa pelo filho que estava demorando demais, ela temia que o assaltante de um metro e oitenta e uma arma cheia de balas em mãos pudesse ter feito algo com ele, ela rezava enquanto cozinhava o feijão.
  Seu filho chegou em casa, um garoto magricela e mal vestido, a empregada o abraçou forte e beijou-lhe a testa, ele carinhosamente retribuiu o beijo e se alegrou por ter carne no jantar. Durante o jantar a mãe contou-lhe a historia do assalto, e o garoto ficou assustado pois não havia visto nada.
  - Engraçado mãe, pois eu estava na praça vendendo minhas balas na hora do assalto e não vi nada. Ele parou, pensou um pouco e concluiu. Ah! Deve ter sido na hora que uma senhora muito bem vestida veio comprar minhas balas e deixou uma carteira vermelha bem grande cair no chão, ela entrou no carro do filho e saiu, a sorte foi que eu corri muito e consegui entregar a carteira a ela. Tinha muito dinheiro la dentro mamãe, ela devia precisar. A unica coisa foi que eu deixei minha caixa cheia de balas no chão e algum ladrão pegou, talvez seja até esse ladrão de um metro e oitenta, agora não tenho mais o que vender amanhã.
  A mãe passou a mão na cabeça do filho enquanto ele comia uma boa colherada de frango.
 - Não tem problema meu filho, você fez o certo, bom saber que você não é como aquele ladrão que anda por ai.
 A mãe estava orgulhosa, o filho feliz por comer frango, a senhorita que segurava  a bolsa bem forte foi pra casa escoltada pelo homem a quem ela havia contado sobre o assalto, o homem chegou em casa feliz por estar ali vivo, a mulher lhe abraçou forte e eles foram com seu filho jantar em um restaurante chique, e os velhos que estavam no banco da praça ali permaneceram até tarde da noite, conversando e comendo uma caixa de balas que haviam encontrado caida no chão.

Caroline Marino Pereira

Inspiração:

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

Clarisse Lispector

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