Aquela quinta feira foi diferente pra Mário. Mário era um senhor que tinha uns oitenta e poucos anos e que já era aposentado a tempos, tinha duas filhas e uma falecida esposa a quem ele muito amava e admirava. Os dias pareciam iguais para Mário, ele morava sozinho portanto não tinha muito com o que se ocupar. Aposentou-se depois de muito trabalhar mas não perdera a mania de levantar cedo, bem cedo.
 Naquela quinta feira como em todas as outras Mário se levantou assim que o sol apontou no horizonte, tomou o seu banho, abotoou os muitos botões de sua camisa preferida, calçou suas sandálias de couro bem confortáveis, colocou o café na cafeteira que ganhara de natal de sua filha caçula -a cafeteira é um dos poucos aparelhos tecnológicos em que Mário costuma usar, pois fazer café nunca foi seu forte- e rumou pela rua esburacada com certa dificuldade até banca de jornal, comprou o jornal de sempre, conversou um bocado com seu amigo jornaleiro, passou pela padaria e comprou uns pãezinhos e cigarro. Mário não fumava desde que seu médico, o Dr. Silveira, o proibiu alegando que Mário morreria antes de terminar a copa do mundo. Seu Mário adorava futebol, principalmente a copa do mundo, então viu-se obrigado a largar o vício. Porém toda quinta feira ele comprava cigarros, pois foi o cigarro aceso ao lado de sua poltrona que garantiu a vitória do Brasil durante tantos anos.
  Voltou para casa, colocou o café na xícara sentou-se na mesa e enquanto lia o jornal tomava seu café matinal. Depois  lavou toda a louça e foi se sentar em sua confortável cadeira de balanço que ficava na varanda. Passado não muito tempo viu-se sem ter o que fazer, até que decidiu varrer as folhas que caiam de seu abacateiro, varreu as folhas que caiam de seu abacateiro e sentou-se novamente na varanda esperando a visita da filha que lhe trazia o almoço todos os dias.

  Mas a hora preferida de Mário era a hora do jogo do Brasil contra a Itália. Mário sentava-se na poltrona encardida e velha que se situava em um ângulo perfeito de seu antigo televisor -sua filha mais velha já quis presentea-lo com uma tv de LCD porém Mário não quis, prefere a televisão antiga porém bem conservada- acendia um cigarro e mudava os canais e sem perceber colocava no canal de vídeo de seu televisor, e o seu aparelho de videocassete já ficava ligado com a fita VHS da final da Copa de 1970. Mário nunca desconfiou que assistia todas as quintas feiras as 15:30 o mesmo jogo, então ele vibrava, e revoltava-se contra o Pelé toda vez que ele perdia o mesmo gol.
  Porém nesta quinta foi diferente.
  Mário tinha uma diarista, a Juliete, uma mulher magra e assustadoramente alta com os cabelos loiros constantemente arrepiados que limpava sua casa fielmente todas as quartas feiars. Porém, Mário nunca viu o rosto de Juliete, sua filha caçula que a indicara. Enquanto Mário ia ao bingo toda quarta pela manhã, Juliete limpava sua casa. E por recomendação da filha de Mário não mexia no videocassete do velho. Depois de limpar pegava o dinheiro da  diária que estava dentro de uma bomboniere que Mário no auge de sua juventude trouxe de Paris em uma de suas viagens com a esposa. A bomboniere ficava sobre a mesinha de centro da sala de estar. Pegava o dinheiro e ia embora antes do velho chegar, ele não gostava de ver ninguém de diferente em sua casa. Porém naquela quarta feira Juliete teve amidalite viral e mandou a sua prima Francisca em seu lugar. Ao contrario de Juliete, Francisca tinha o corpo rechonchudo, olhos arregalados e cabelos bem penteados, porém seu maior defeito era a curiosidade.
   Francisca parecia mais uma exploradora do que uma faxineira, mexia e remexia em tudo, revirava os armários, as gavetas e sim... revirou o videocassete do Sr. Mário. Revirou as fitas, os discos e tudo mais que se encontrava ali. Por ironia do destino Francisca mudou as fitas e colocou no aparelho a fita da copa de 1974 no jogo em que o Brasil jogara contra a Holanda e não marcara nem um gol. Depois de ter feito isso Francisca pegou a sua diária na bomboniere e foi embora.
  E naquela quinta feira Mário sentou-se na poltrona, acendeu o cigarro, mudou de canal e assistiu o jogo. Nunca esteve tão vivo, nunca gritou tanto, nunca rezou tanto, nunca sentiu a adrenalina da derrota e da esperança de um gol.
  O Brasil perdeu.
  Algo mudou dentro do velho. A quinta feira não foi a mesma. Ele quis chorar, mas ao mesmo tempo sentiu-se tão bem, tão vivo, tão renovado.
  Mário só precisou de 90 minutos e uma partida frustante para então reviver. Relembrar como é viver e se emocionar. Sentir...
  A partir dali sem que ele saiba Juliete muda as fitas todas as quartas feiras, e todas as quintas são diferentes, cada quinta feira é uma emoção nova, um sentimento novo, algo adormecido acordou em Seu Mário, e ele já está pensando até em ir a um estádio para ver o Pelé.


Caroline Marino Pereira

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Clarisse Lispector

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