Sentia fome. Então em um golpe ligeiro levantou-se da poltrona já encardida, a muito sentava-se ali, e rumou até a cozinha vazia. Vazia como a sala onde assistia em sua televisão moderna os programas rotineiros de domingo.Vazia como o quarto onde refugiava-se nos dias de inverno, "A sala entra muito vento!" exclamava a mesma frase para si mesmo em tom de ira.Vazia como o resto da casa, e como seu sonho de casar-se de véu e grinalda.
Abriu o armário com um pouco de dificuldade pois era uma mulher de baixa estatura, puxou lá de cima os ingredientes necessários para fazer canjica, adorava fazer canjica, e fazia canjica divinamente como nenhuma outra conseguiria fazer.
Enquanto cozinhava seu prato preferido, ou melhor, a unica coisa em que podia gabar-se cozinhar bem, o resto era um fracasso total, ia assistindo a TV, e ria sozinha, gargalhava, chorava de rir das vídeo cassetadas, eram raros os momentos em que ria.
Enquanto ria viu seu reflexo na panela em que cozinhava suas adoráveis canjicas, os cabelos precisavam de nova pintura, fios brancos já apareciam e multiplicavam-se assim como suas rugas. Até um tempo atrás ninguém ousaria dizer que Branca tinha mais de 40 anos, "Como pude ficar assim? O tempo passou e eu nem percebi, olha como estou agora." pensava isso enquanto mexia nos cabelos pouco cuidados.
Branca sempre fora elegante sem deixar sua brandura de lado, dócil, linda, dedicada, inteligente, um pouco negligente nas tarefas domesticas, mas como diria sua avó, "Daria uma ótima mãe." "É um bom partido, uma moça linda e sensível, como ainda não se casou?" comentavam os parentes em todas as reuniões familiares.
Branca vivia sozinha a espera de domingo para poder rir um bocado e cozinhar sua panela de canjica. Já virara rotina como tudo em sua vida. Ela fazia uma panela bem grande de canjica e guardava o resto em potes vazios de sorvete e então na segunda-feira distribuia aos vizinhos, vizinhos estes que só a cumprimentavam aos domingos e segundas.
O que a vida dera à Branca além do dom sagrado de cozinhar canjicas?
Talvez seja esse dom que a destruiu. Toda vez que as pessoas comiam a canjica de Branca lambiam os lábios e bradavam em coro, "Já pode casar hein Branca?! Já pode casar." Branca agarrou-se a certeza de que a canjica lhe arrumaria um bom casamento, mas nenhum homem solteiro sequer havia provado de sua canjica, e a canjica apenas lhe arranjou números a mais em seu manequim.
Branca refletiu e em um suspiro disse, " É tudo culpa da canjica, da maldita canjica.". Jogou a canjica pré cozida na lata de lixo, pediu uma pizza pelo telefone, esperou que esta chegasse e quando abriu a porta um motoboy não muito bonito, nem muito jovem, porém solteiro, lhe entregou a pizza com um sorriso no rosto. Ele sentiu o aroma da canjica e atreveu-se a pedir um pouco. "Essa é a minha chance, ele é solteiro, vai provar da minha canjica, e nós iremos casar, tenho certeza, iremos casar, estou apaixonada, estou amando..." suspirando pensou. Subitamente despertou de seu sonho e lembrou-se de que havia jogado no lixo a maldita canjica. Fechou a porta com brutalidade sem se quer despedir-se de seu ex-futuro marido, sentou-se na poltrona e voltou a assistir Faustão devorando a pizza e repetindo para si mesma: "É tudo culpa da canjica, da maldita canjica..."
Caroline Marino Pereira
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1 leitores comentaram:
Nossa!! Adorei! Como pode pensar nisso? Desenvolveu toda a história em torno da canjica, mas é preciso que a gnt note que a culpa nao é da pobre da canjica.
Muito bom msm!
Lorranny Berto
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