"Vilma Maria Fagundes... Vilma Maria Fagundes..." Ela repetia enquanto olhava seu reflexo no espelho. "Vilma Maria Fagundes" falou com uma voz grave e segura, passava autoridade para si mesmo no espelho, por um momento se sentiu forte, realizada, uma mulher de verdade que impusesse respeito e até um certo medo. Suspirou por um momento, a mulher que era refletida no espelho não era a Vilma Maria Fagundes que ela tanto tentava se convencer que era.
  A Vilma Maria Fagundes não tinha o que se queixar de sua vida. Nasceu em boa família, teve boa educação, aprendeu todo o tipo de prenda doméstica com sua mãe, foi ensinada a ser uma esposa exemplar, cozinhava divinamente, tinha noções de etiqueta e falava duas línguas.
  Passou a juventude inteira se preparando para o sonho de sua mãe: casar-se com um bom partido. E Vilminha casou-se com o Mario Fagundes, "Esse menino tem um futuro promissor!" Exclamava a mãe de Vilminha. Mario, mais conhecido como Fagundes, era jovem na época que pediu a mão de Vilminha, não era tão belo, mas seus olhos verdes despertavam um certo interesse na menina. Porém, Vilminha não sonhava em casar-se cedo, queria ser piloto de avião, astronauta, ou até entrar para o exército, menos casar. Vilminha queria ser independente e se apaixonar perdidamente, viver amores intensos, sonhos e loucuras adolescentes. Queria nadar em alto mar, sentar sem cruzar as pernas, colocar os cotovelos na mesa, gargalhar, roer as unhas, pintar os cabelos de loiro, usar decotes e mini saias, andar de bicicleta e correr sem sapatos com os cabelos soltos. Vilminha queria ousar. Vilminha era covarde, não tinha coragem de dizer não, não tinha coragem. E Vilminha não queixava-se guardava pra si os sonhos impossíveis e lunáticos que mantinha.
  Casou-se com Fagundes. Casou-se linda, um véu, um vestido, um buquê, um colar de pérolas, alianças, violino, damas de honra e uma grande festa no final. Vilma sorria durante a cerimônia, sorria em todas as fotos, e até sorria enquanto os convidados jogavam arroz em seu vestido caríssimo. Vilma odiava arroz, odiava quando jogavam arroz em seu decote comportado. Vilma odiava tudo. Porém nunca se deu ao luxo de sentir ódio de verdade, nunca se deu ao luxo de sentir de verdade. Nunca amou de verdade, nunca se satisfez de verdade. Pensava estar satisfeita por ter conseguido tudo que sua mãe sonhava, uma casa grande, filhos, um marido carinhoso, vestidos, jóias, viagens... Mas o que ela realmente pretendia com isso? O que a Vilma Maria Fagundes conquistou que antiga Vilminha desejava?
  Vilma Maria Fagundes adormeceu Vilminha desde que se tornou "a Vilma do Fagundes". Vilma não tinha identidade, não tinha história, era coadilvante em  sua própria novela. Quando um grupo de amigos conversavam sobre Vilma sempre tinha um que perguntava "Que Vilma? A do Fagundes?". E era isso que Vilma era, a Vilma DO Fagundes. Não tinha o que contar sobre ela, não almejava muita coisa além de acertar o ponto da massa do bolo de cenoura que Fagundes tanto gostava,e lambia até os dedos sujos de calda. Vilma se acostumou assim. Era frescura, pensava ela, a essa altura da vida querer mudar o que ja foi feito. "A Vilminha morreu!" Exclamou com raiva olhando para o espelho. Segurou com força o vaso que havia comprado em uma de suas viagens à Itália, e ameaçou lança-lo contra o espelho e acabar logo de vez com o reflexo da antiga Vilminha. Não teve coragem. Colocou o vaso no lugar de origem, retocou o batom, ajeitou os cabelos bem tratados, vestiu o vestido preferido de Fagundes e desceu para o jantar oferecido a alguns amigos, onde era servido peixe ao molho branco. Vilma não gostava de peixe desde que era criança, mas sentou-se a mesa e saboreou o peixe como fosse sua carne favorita. Aliás, era a carne favorita de Fagundes.

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"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

Clarisse Lispector

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