Papel
Caneta
Tinta

Tinta na caneta
Caneta no papel
Tinta no papel

Rabiscando palavras
Desenhando letras
Esvaziando a caneta

Caneta sem tinta

Papel
Caneta
Tin

  Tentou respirar normalmente. Tentou conter o descompasso das batidas de seu coração. Tentou amenizar o tremor das mãos e o pingar do suor frio em sua camisa engomada e bem alinhada.
  Ajeitou minuciosamente o cabelo antes de sair de casa, pois este nunca permanecia no mesmo lugar por muito tempo. Mas ao chegar lá já não mantinha a mesma perfeição da que via no espelho em sua casa. Conteve a respiração, encheu de ar os pulmões, segurou as flores com força na mão esquerda e com a direita bateu na porta.
 toc-toc, toc-toc.
  Pode ouvir os passos apressando-se até a porta. Aquela espera pareceu-lhe uma eternidade. Enquanto esperava tremia, suava, sonhava ... Sonhava em ver o rosto da amada. Sonhava em sentir seu abraço forte ao vê-lo. Sonhava em senti-la em seus braços, indefesa, dependente, protegida. Sonhava em sentir seu cheiro, seu toque, seu amor. Sonhava com o abrir da porta e o sorriso inocente nascendo no rosto delicado e frágil.
 A porta se abriu.
 Ele sorriu ao vê-la deitada. Seu coração batia ainda mais rápido, descompassado, desritmado. Colocou as flores sobre o criado que havia ao lado da cama. A tomou em seus braços fortes. Ela sorriu. Uma lágrima sincera escapuliu de seus olhos e percorreu todo o seu rosto. A esperou por tanto tempo, a desejou e a amou antes mesmo que ela pudesse vê-lo. E agora a tinha em seus próprios braços, a possuia, a amava como nunca amou ninguém no mundo inteiro.
  Um momento único. Seu tremor cessou. Agora precisa de forças para protege-la. Precisa de forças para lutar por ela, um ser tão pequeno e indefeso, uma jóia tão rara e tão frágil, uma vida tão inocente e pura, um amor eterno e incomparável. O amor de sua vida. Sua filha.


 Ela só queria saber fazer poemas.
 Ela só queria alguém que a compreendesse.
 Ela só queria saber fazer poemas.

Sempre a achavam preocupada demais.
 Pensativa demais.
 Sonhadora demais.

Porém, ela só se preocupava em fazer poemas.
Cansava-se de tanto querer.
 Tanto pensar.
 Tanto sonhar.
 Em fazer  poemas.

 Ela nunca aprendeu.
 Nunca rimou.
 Nunca descansou.
 Nunca...

Caroline Marino Pereira

  Aquela quinta feira foi diferente pra Mário. Mário era um senhor que tinha uns oitenta e poucos anos e que já era aposentado a tempos, tinha duas filhas e uma falecida esposa a quem ele muito amava e admirava. Os dias pareciam iguais para Mário, ele morava sozinho portanto não tinha muito com o que se ocupar. Aposentou-se depois de muito trabalhar mas não perdera a mania de levantar cedo, bem cedo.
 Naquela quinta feira como em todas as outras Mário se levantou assim que o sol apontou no horizonte, tomou o seu banho, abotoou os muitos botões de sua camisa preferida, calçou suas sandálias de couro bem confortáveis, colocou o café na cafeteira que ganhara de natal de sua filha caçula -a cafeteira é um dos poucos aparelhos tecnológicos em que Mário costuma usar, pois fazer café nunca foi seu forte- e rumou pela rua esburacada com certa dificuldade até banca de jornal, comprou o jornal de sempre, conversou um bocado com seu amigo jornaleiro, passou pela padaria e comprou uns pãezinhos e cigarro. Mário não fumava desde que seu médico, o Dr. Silveira, o proibiu alegando que Mário morreria antes de terminar a copa do mundo. Seu Mário adorava futebol, principalmente a copa do mundo, então viu-se obrigado a largar o vício. Porém toda quinta feira ele comprava cigarros, pois foi o cigarro aceso ao lado de sua poltrona que garantiu a vitória do Brasil durante tantos anos.
  Voltou para casa, colocou o café na xícara sentou-se na mesa e enquanto lia o jornal tomava seu café matinal. Depois  lavou toda a louça e foi se sentar em sua confortável cadeira de balanço que ficava na varanda. Passado não muito tempo viu-se sem ter o que fazer, até que decidiu varrer as folhas que caiam de seu abacateiro, varreu as folhas que caiam de seu abacateiro e sentou-se novamente na varanda esperando a visita da filha que lhe trazia o almoço todos os dias.

  Mas a hora preferida de Mário era a hora do jogo do Brasil contra a Itália. Mário sentava-se na poltrona encardida e velha que se situava em um ângulo perfeito de seu antigo televisor -sua filha mais velha já quis presentea-lo com uma tv de LCD porém Mário não quis, prefere a televisão antiga porém bem conservada- acendia um cigarro e mudava os canais e sem perceber colocava no canal de vídeo de seu televisor, e o seu aparelho de videocassete já ficava ligado com a fita VHS da final da Copa de 1970. Mário nunca desconfiou que assistia todas as quintas feiras as 15:30 o mesmo jogo, então ele vibrava, e revoltava-se contra o Pelé toda vez que ele perdia o mesmo gol.
  Porém nesta quinta foi diferente.
  Mário tinha uma diarista, a Juliete, uma mulher magra e assustadoramente alta com os cabelos loiros constantemente arrepiados que limpava sua casa fielmente todas as quartas feiars. Porém, Mário nunca viu o rosto de Juliete, sua filha caçula que a indicara. Enquanto Mário ia ao bingo toda quarta pela manhã, Juliete limpava sua casa. E por recomendação da filha de Mário não mexia no videocassete do velho. Depois de limpar pegava o dinheiro da  diária que estava dentro de uma bomboniere que Mário no auge de sua juventude trouxe de Paris em uma de suas viagens com a esposa. A bomboniere ficava sobre a mesinha de centro da sala de estar. Pegava o dinheiro e ia embora antes do velho chegar, ele não gostava de ver ninguém de diferente em sua casa. Porém naquela quarta feira Juliete teve amidalite viral e mandou a sua prima Francisca em seu lugar. Ao contrario de Juliete, Francisca tinha o corpo rechonchudo, olhos arregalados e cabelos bem penteados, porém seu maior defeito era a curiosidade.
   Francisca parecia mais uma exploradora do que uma faxineira, mexia e remexia em tudo, revirava os armários, as gavetas e sim... revirou o videocassete do Sr. Mário. Revirou as fitas, os discos e tudo mais que se encontrava ali. Por ironia do destino Francisca mudou as fitas e colocou no aparelho a fita da copa de 1974 no jogo em que o Brasil jogara contra a Holanda e não marcara nem um gol. Depois de ter feito isso Francisca pegou a sua diária na bomboniere e foi embora.
  E naquela quinta feira Mário sentou-se na poltrona, acendeu o cigarro, mudou de canal e assistiu o jogo. Nunca esteve tão vivo, nunca gritou tanto, nunca rezou tanto, nunca sentiu a adrenalina da derrota e da esperança de um gol.
  O Brasil perdeu.
  Algo mudou dentro do velho. A quinta feira não foi a mesma. Ele quis chorar, mas ao mesmo tempo sentiu-se tão bem, tão vivo, tão renovado.
  Mário só precisou de 90 minutos e uma partida frustante para então reviver. Relembrar como é viver e se emocionar. Sentir...
  A partir dali sem que ele saiba Juliete muda as fitas todas as quartas feiras, e todas as quintas são diferentes, cada quinta feira é uma emoção nova, um sentimento novo, algo adormecido acordou em Seu Mário, e ele já está pensando até em ir a um estádio para ver o Pelé.


Caroline Marino Pereira

Inspiração:

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

Clarisse Lispector

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