O acaso parecia distraido para com ela. Ela porém era sempre atenta às ironias que o destino poderia fazer. Mas nunca fazia ... nunca.
Ela sonhava e ansiava por algo diferente e inusitado, algo surpreendente que mudaria sua vida de uma hora para a outra, que colocasse toda a sua organização de cabeça para baixo, que abrisse as gavetas secretas e bem arrumadas do seu coração e lançasse tudo ao chão, que transformasse suas fantasias e miragens em algo concreto e real e que abalasse as estruturas sólidas em que ela se encontrava.
Ela sempre planejava tudo, desde o horário em que acordaria e tomaria sua xícara de café com três gotas adoçante até o momento exato de desligar sua televisão, onde assistia os mesmos programas tediosos e sem conteúdo útil, para depois ir cambaleando até o quarto e então pegar rapidamente no sono.
Sua vida era tão monótona e previsível que nem ao menos queimar-se com café ela se queimava, ou colocava sem querer uma gota a mais de adoçante no café, ou tropeçava em algo que havia no corredor escuro que ligava a sala de tv até o quarto. Seus planos eram cumpridos a risca, não por escolha dela mas por esse tal de acaso que nunca se manifestava.
Por incrível que pareça hoje ela havia acordado com a sensação de que algo iria acontecer, que algo mudaria os trilhos de sua vida. Ela levantou no primeiro toque do despertador como toda manhã, sua vida regrada não permitia atraso, tomou café, foi para o trabalho, cumprimentou sua secretária, digitou umas coisas, atendeu uns telefonemas, fechou um contrato e foi almoçar naquele restaurante bacana enquanto paquerava o mesmo garçom, pagou a conta, entrou no carro, voltou ao trabalho, depois de uma longa reunião exaustiva chegou em casa tirou os sapatos de salto, soltou os cabelos e afrouxou a cinta, pediu comida japonesa, terça-feira é o dia de japonês, esperou a comida sentada em sua cadeira predileta enquanto digitava algumas coisas em seu notebook, a comida chegou, comeu, verificou duas vezes se o apartamento estava todo fechado, tomou um banho demorado, vestiu um pijama bem quente, ligou a tv, esperou que o sono chegasse, chegou. Apagou o televisor, apagou as luzes, foi andando bêbada de sono pelo corredor, foi ai então que... bateu o dedinho do pé na quina da porta, xingou um palavrão bem feio pois dizem que alivia a dor e depois sorriu, caiu na gargalhada, havia feito algo diferente em seu dia. Agradeceu ao acaso, e ainda com o dedinho latejando buscou gelo na cozinha, colocou gelo, depois disso dormiu, dormiu meia hora depois da hora habitual, dormiu feliz, acordou sorrindo.
"Vilma Maria Fagundes... Vilma Maria Fagundes..." Ela repetia enquanto olhava seu reflexo no espelho. "Vilma Maria Fagundes" falou com uma voz grave e segura, passava autoridade para si mesmo no espelho, por um momento se sentiu forte, realizada, uma mulher de verdade que impusesse respeito e até um certo medo. Suspirou por um momento, a mulher que era refletida no espelho não era a Vilma Maria Fagundes que ela tanto tentava se convencer que era.
A Vilma Maria Fagundes não tinha o que se queixar de sua vida. Nasceu em boa família, teve boa educação, aprendeu todo o tipo de prenda doméstica com sua mãe, foi ensinada a ser uma esposa exemplar, cozinhava divinamente, tinha noções de etiqueta e falava duas línguas.
Passou a juventude inteira se preparando para o sonho de sua mãe: casar-se com um bom partido. E Vilminha casou-se com o Mario Fagundes, "Esse menino tem um futuro promissor!" Exclamava a mãe de Vilminha. Mario, mais conhecido como Fagundes, era jovem na época que pediu a mão de Vilminha, não era tão belo, mas seus olhos verdes despertavam um certo interesse na menina. Porém, Vilminha não sonhava em casar-se cedo, queria ser piloto de avião, astronauta, ou até entrar para o exército, menos casar. Vilminha queria ser independente e se apaixonar perdidamente, viver amores intensos, sonhos e loucuras adolescentes. Queria nadar em alto mar, sentar sem cruzar as pernas, colocar os cotovelos na mesa, gargalhar, roer as unhas, pintar os cabelos de loiro, usar decotes e mini saias, andar de bicicleta e correr sem sapatos com os cabelos soltos. Vilminha queria ousar. Vilminha era covarde, não tinha coragem de dizer não, não tinha coragem. E Vilminha não queixava-se guardava pra si os sonhos impossíveis e lunáticos que mantinha.
Casou-se com Fagundes. Casou-se linda, um véu, um vestido, um buquê, um colar de pérolas, alianças, violino, damas de honra e uma grande festa no final. Vilma sorria durante a cerimônia, sorria em todas as fotos, e até sorria enquanto os convidados jogavam arroz em seu vestido caríssimo. Vilma odiava arroz, odiava quando jogavam arroz em seu decote comportado. Vilma odiava tudo. Porém nunca se deu ao luxo de sentir ódio de verdade, nunca se deu ao luxo de sentir de verdade. Nunca amou de verdade, nunca se satisfez de verdade. Pensava estar satisfeita por ter conseguido tudo que sua mãe sonhava, uma casa grande, filhos, um marido carinhoso, vestidos, jóias, viagens... Mas o que ela realmente pretendia com isso? O que a Vilma Maria Fagundes conquistou que antiga Vilminha desejava?
Vilma Maria Fagundes adormeceu Vilminha desde que se tornou "a Vilma do Fagundes". Vilma não tinha identidade, não tinha história, era coadilvante em sua própria novela. Quando um grupo de amigos conversavam sobre Vilma sempre tinha um que perguntava "Que Vilma? A do Fagundes?". E era isso que Vilma era, a Vilma DO Fagundes. Não tinha o que contar sobre ela, não almejava muita coisa além de acertar o ponto da massa do bolo de cenoura que Fagundes tanto gostava,e lambia até os dedos sujos de calda. Vilma se acostumou assim. Era frescura, pensava ela, a essa altura da vida querer mudar o que ja foi feito. "A Vilminha morreu!" Exclamou com raiva olhando para o espelho. Segurou com força o vaso que havia comprado em uma de suas viagens à Itália, e ameaçou lança-lo contra o espelho e acabar logo de vez com o reflexo da antiga Vilminha. Não teve coragem. Colocou o vaso no lugar de origem, retocou o batom, ajeitou os cabelos bem tratados, vestiu o vestido preferido de Fagundes e desceu para o jantar oferecido a alguns amigos, onde era servido peixe ao molho branco. Vilma não gostava de peixe desde que era criança, mas sentou-se a mesa e saboreou o peixe como fosse sua carne favorita. Aliás, era a carne favorita de Fagundes.
