P.S. Talvez eu seja romântica.
                                           Talvez não.


    Ele / Ela

E ele a avistou.
    A viu sentada na ultima mesa do café. Olhos fixos e um tanto quanto tristes, mas eram olhos tão lindos quanto o amanhecer de um novo dia, olhos que mesmo tristes ainda levavam consigo a beleza, a delicadeza e a fragilidade da mulher em questão. Estava com o queixo entre as mãos e os cutuvelos fixos a mesa redonda e limpa do café mais popular da cidade.
  Seus longos cabelos deliniavam perfeitamente o formato de seu rosto delicado e pálido. Ela era linda. Pelo menos para ele, ela era a mais linda do recinto, ou até talvez, a mais linda do mundo.
   Ele queria se aproximar, e poder sentir de perto o aroma suave e avassalador que surgia toda vez que ela entrava. Mas não conseguia. Suas pernas travavam no chão. Seus pés não obedeciam ao comando do seu coração. Quem era ele afinal?! Um mero garçom de um grande café? Um simples servidor de café? Um empregado? Um jovem sonhador? Um estudante dedicado? Um filho obediente? Um menino travesso? Talvez seja a junção de tudo. Ou talvez ele fosse um NADA!
  E a moça com quem ele sonhava estático de pé atrás do balcão com toda certeza não iria querer nada com ele. Nem ao menos um olhar lúbrico em ipotese alguma ela dirigiria até ele. Esses eram os pensamentos que pairavam em sua mente. Pensamentos altamente paradoxos com o que ele desejava constantemente.
  A garota visitava o café todas as tardes depois de seus estudos matinais.
  Sentava-se, apoiava os cutuvelos na mesa e o queixo nas mãos. Escolhia minuciosamente um ponto para olhar fixo, e ali por um tempo ficava, tomava uma xícara de café com leite ou ate duas e bolo de chocolate. Era seu pedido favorito. Raramente pedia outra coisa além disso. Comia, pagava, e retirava-se do local.
  Toda vez que ela saia o lugar ficava vazio e triste. Toda vez que ela saia o aroma não era o mesmo, o lugar voltava a ter cheiro de café. Toda vez que ela saia ele se sentia só, sem nada com o que admirar-se, sem nada para sonhar. Toda vez que ela saia tudo saia. Tudo sumia. Ficava vazio e assombroso.
  Mas hoje era um dia especial. Ela não havia chegado na hora habitual, chegou um pouco antes. Talvez muito antes. Ela veio pela manhã. E quando entrou pareceu procurar algo. Quando entrou pareceu ter a expectativa que algo bom fosse acontecer.
  Mas ele não a viu por alguns instantes.
  Atendia os clientes com a paciência e a gentileza habitual. Anotou os pedidos sem ao menos perceber que a amada havia entrado. Entrou na cozinha onde reinava o cheiro de café. Quando saiu sentiu um aroma suave e adocicado de morango. Pensou estar delirando. "Ela não costuma chegar a essa hora" pensou vagamente. Não seria possível alguém ter um cheiro tão perfeito e encantador quanto o dela. Seria impossível duas pessoas terem um aroma tão bom que encobrisse o cheiro de café de uma cafetaria lotada.
  Sem muita esperança ele olhou minuciosamente todo o local. E quando pensou em desistir. Resolveu continuar.
  E ele a avistou.
  Ela o avistou.
  Os dois olhares se encontraram por uma fração de segundos, nesse segundo corações despararam, mãos suaram, pernas tremeram e olhos involuntariamente mudaram de posição rapidamente, fazendo com que eles já não se olhassem mais nos olhos.
  Ele resolveu olhar novamente.
  Ela também.
  Sendo assim não deixaram com que seus olhos se desviassem. A menina sorriu. O seu olhar de decepção já não era mais o mesmo, um pingo de esperança que seu dia seria bom surgiu na hora em que os olhares se encontraram. Ele sorriu. E os dentes brancos reluziam felicidade, e as marcas de expressão alongaram-se nos rostos tentando usufruir o máximo de sorriso possível em um rosto humano.
  Ele se aproximou vagarosamente. Ela desapoiou o queixo das mãos e os cutuvelos da mesa. Arrumou sua postura na cadeira macia e confortável. Não conseguia conter seu coração. A cada passo que ele dava, a cada respiração ofegante, a cada centimetro aproximado. O coraçõe de ambos pulsava mais forte ritmado e involuntário, as mãos suavam friamente e a mente já não comandava seus corpos.
  Ele chegou perto.
  Ela sorriu.
  Ele sorriu.
  Ele lhe pediu a mão.
  Ela aceitou.
  Ele a beijou.
  Ela o beijou.
  Eles atingiram o céu naquele momento. Bailaram nas estrelas ao som do harpas e anjos cantantes.
  Ele não sabia o nome dela.
  Ela não sabia o nome dele.
  Eles não se importavam.
  Nada mais importava pra eles a partir dali.
     
              
Caroline Marino Pereira

Inspiração:

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

Clarisse Lispector

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